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Reflexões sobre A Teoria Ampliada do Estado em Gramsci.
João Rego
Texto publicado em 5 de Abril de 1991 no Caderno Cultural
do Jornal do Commercio quando dos 100 anos do nascimento de Antônio
Gramsci.
Desde Maquiavel até Hobbes, de Locke, Rousseau até Marx
o Estado vem sendo interpretado das mais diversas maneiras. É,
entretanto, em Marx que o Estado perde sua áurea de superioridade
entre os homens.
Em Hobbes, o poderoso Leviatã, no qual todas as experiências
históricas totalitárias podem ser nele retratadas, em Locke
o Estado liberal, protetor da propriedade privada; todos vem agregando
partes de "verdade" na explicação desse estranho
"ente" que representa a passagem da humanidade do estado natural
para o estado de vida em sociedade. Porém, foi apenas em Marx onde
o Estado foi "dessacralizado" , ou seja foi relacionada sua
existência às contradições das classes sociais
existentes na sociedade.
Assim, em vez do Estado imanente e superior, acima dos homens, Marx apresenta-o
como um mero instrumento da classe dominante. A gênese do Estado
reside portanto, na divisão da sociedade em classes, sendo sua
principal função conservar e reproduzir esta divisão,
garantindo os interesses da classe que domina as outras classes.
Esta descoberta de Marx, alterou significativamente as relações
sociais, em decorrência das diversas inferências que a classe
trabalhadora pôde dai extrair, principalmente no sentido de estimular
a luta pela superação das contradições internas
da sociedade, assumindo uma posição de nova classe dominante,
extinguindo-se assim a sociedade de classes.
Desta visão aparentemente simplista e mecaniscista, Gramsci desenvolve
uma visão mais elaborada e complexa sobre a sociedade e o Estado.
Para ele, o Estado é força e consenso. Ou seja, apesar de
estar a serviço de uma classe dominante ele não se mantém
apenas pela força e pela coerção legal; sua dominação
é bem mais sutil e eficaz.
Através de diversos meios e sistemas, inclusive e principalmente,
através de entidades que aparentemente estão fora da estrutura
estatal coercitiva, o Estado se mantém e se reproduz como instrumento
de uma classe, também construindo o consenso no seio da sociedade.
Assim Gramsci amplia a visão marxista do Estado, interpretando-o
como um ser que a tudo envolve, o qual é composto pela sociedade
política e a sociedade civil. Em suas palavras:
Estado - sociedade civil e sociedade política, isto é hegemonia
encouraçada de coerção.(..........)
O termo hegemonia, apesar de ter sido usado anteriormente por Lênin,
traz uma dupla interpretação: a primeira, teria o significado
de dominação; a segunda um significado de liderança
tendo implícita alguma noção de consentimento. É
nesta segunda definição que este termo assume um papel de
destaque na elaboração de todo o quadro teórico gramsciano.
É interpretando como se dá a dominação da
burguesia na Itália, e utilizando Maquiavel e Pareto, sobre seus
conceitos de Estado como força e consentimento, que o conceito
de hegemonia em Gramsci assume papel fundamentador na sua concepção
de Estado.
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João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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