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Zé Dirceu, o poder e o infantilismo da esquerda.
João Rego
Recife, 24 de outubro de 2005
Quem viveu os anos sessenta, não pode deixar de reconhecer a importância
da heróica figura de José Dirceu. Líder estudantil
em São Paulo, inspirava a todos a saírem às ruas
de peito aberto contra o regime autoritário que acabara de envolver
o país com sua sinistra cortina de autoritarismo e repressão.
Era um tempo de utopias e heróis.
Veio à transição" lenta e gradual " para
a democracia, que foi de 1982 a 1989 quando tivemos a primeira eleição
livre para presidente. Collor se elege, vencendo Lula com o apoio explícito
da TV Globo. Deu no que deu. O impeachment de Collor foi o nosso primeiro
teste para a consolidação da incipiente democracia que se
instaurava.
Passamos no teste e aí veio a democracia.
Mas a esquerda ainda haveria de esperar o governo transitório
de Itamar, vice de Collor, e mais dois governos do PSDB, com Fernando
Henrique Cardoso.
Finalmente, em 2002, chega Lula ao poder, tendo por trás como
principal articulador da campanha o José Dirceu. Foi um momento
catártico para esquerda. Até Fidel (outro ex-herói)
veio para a posse, em sua plena decrepitude física, política
e histórica.
Ter um operário no poder em um país como o Brasil, foi
um importante balizamento para as forças de esquerda, socialistas,
sindicalistas e progressistas em geral. Um fio de identificação
com os movimentos operários europeus, com o marxismo e com as utopias
socialistas que os moveram ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX
perpassou os corações e as mentes daqueles que pautaram
suas vidas movidas por essa ideologia.
Irrompe um certo lampejo de idealismo, onde o determinismo histórico
ressurge em favor dessas forças, com a possibilidade de transformações
sociais reais, mesmo dentro de um modo de produção capitalista.
Pensam: "Se a história se coloca a nosso favor, somos os
seus agentes e para cumprir nossa missão tudo é válido,
inclusive inverter a ética, revirando-a pelo avesso, fazendo acordos
até com diabo, de chifres e pés de cabra".
Só que nesse caso o diabo canta ópera e é um grande
orador.
Esta é uma hipótese possível, que com um pouco de
generosidade, tentamos entender o que se passou com José Dirceu,
e por tabela com grande parte dos gestores e eleitores de Lula.
Acontece que não estamos em 1917, ano que Lênin chegou ao
poder na Rússia, embora algumas mentes, ilustradas até,
estejam para sempre aprisionadas no passado, quando a ideologia marxista
fez os seus efeitos transformadores, para o bem e para o mal, na sociedade
e na economia.
Estamos hoje, quer queiramos ou não, sob o domínio de um
capitalismo implacável, avassalador para quem se recusa a compreender
sua entranhas e vicissitudes. A tecnologia, joga no lixo da história
(ou deleta?), a cada seis meses, tudo aquilo que se teoriza em termos
de comunicação e informação.
Uma lição que os ideólogos e "utopistas"
de esquerda devem aprender, é que não se faz mais política
de transformação social fora do ambiente democrático
moderno.
Essa é a grande lição após tudo que despencou
com a queda do muro de Berlim, em 1989: a sobredeterminação
da pluralidade democrática sobre as forças políticas
que movem a sociedade.
E isto significa respeitar os limites que a lei nos impõe, mesmo
que estes impeçam os desejos daqueles que se sentem donos de uma
"missão histórica".
Se a agenda política da esquerda no Brasil é hoje ordenada
por certo humanismo populista, as vezes infantil, megalomaníaco,
tem-se como contraponto, a agenda liberal de direita, nem sempre tão
humanista assim, mas pragmática e objetiva quanto à produção
da riqueza, sem necessariamente distribuí-la.
Recomenda-se a primeira, a seguir o exemplo do velho Marx, que se enfurnou
no Museu Britânico para estudar o capitalismo da época.
A lógica que o moveu foi muito simples: se queres transformar
algo em sua essência, tens que compreendê-lo primeiro.
Se o núcleo duro do capitalismo moderno é inacessível,
revogem-se as utopias, com urgência, ou então mudem de partido,
como na prática já fez o Palocci, para sorte da nossa economia.
Para o PT, no momento que assume o poder em Brasília, muito antes
de chegar a esse nível, a lição de casa, básica
e imediata seria como gerir a máquina pública com uma nova
prática de gestão? Na política externa, a lição
seria compreender as forças econômicas globais e tentar inserir
o Brasil, de forma competitiva, no cenário do comércio internacional.
Perderam em ambas. Foram reprovados. Ficaram muito aquém do que
a história (ou o acaso?) os reservara.
O trauma mais grave, entretanto, é que por muito tempo as forças
progressistas serão vítimas da zombaria da direita que terá
motivos reais para tentar convencer o eleitorado de que é tudo
a mesma "coisa", quando não é.
***
João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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