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Social democracia e mudança política.


João Rêgo
Artigo publicado no Jornal do Commercio em 3 de março de 1990

O profundo processo de restruturação que atravessa de forma irreversível todos os países do Leste Europeu, demonstra, para aqueles que pretendem refletir e atuar de forma engajada sobre o processo histórico do nosso tempo, a urgente necessidade de se acelerar também no plano ideológico e nos meios intelectuais, a construção de uma nova concepção de mundo, que não só assimile a nova dinâmica que a realidade política apresenta, como também, se antecipe e exerça o seu papel crítico com vistas a garantir os avanços e as conquistadas orientadas para o grande objetivo que secularmente vem sendo perseguido pelas correntes políticas mais progressistas: a construção de uma sociedade economicamente rica, politicamente emancipadora e socialmente justa.

A grande dissidência no pensamento da humanidade surgida com o marxismo, abre de forma definitiva, pela primeira vez na história, a possibilidade concreta de realizar o que os socialistas utópicos perseguiram como verdadeiros loucos visionários: um reino de justiça na terra.

O conceito de luta de classes, o materialismo histórico, o materialismo dialético, a forte visão determinista do fim da sociedade de classes - a construção de um novo Éden na terra -, guiou durante décadas, valorosos intelectuais militares e líderes políticos movidos em sua ação por um profundo e comovedor idealismo humanitário.

O capitalismo era o principal adversário e responsável direto por todos os males da sociedade.

Era necessário superá-lo, e o homem sujeito de sua própria história, acrescido da predominante característica autofágica do modo de produção capitalista, se encarregaria de superá-lo. Em seu lugar se instalaria a sociedade socialista, a qual, ao longo do processo atingiria o estágio comunista, quando cessaria definitivamente a dominação de uma classe sobre outras.

Isto seria inevitável.

Entretanto, passados já mais de sete décadas desde a implantação do primeiro Estado instituído nos moldes do socialismo científico, o resultado é preocupante. O capitalismo demonstrou, mesmo que movido por razões não tão humanitárias - o lucro -, uma enorme capacidade de expansão e dominação - através de tecnologia -, das forças da natureza para a produção da riqueza, deixando os povos dos países socialistas na pré-história do desenvolvimento econômico.

Agravando-se a este atraso, constata-se a consolidação de um Estado hobbesiano, esmagando as liberdades básicas do indivíduo e encobrindo com o pesado manto do autoritarismo a sociedade civil dos países socialistas.

A realidade está impulsionando dialeticamente para um leito único forças historicamente antagônicas (socialistas e liberais), as quais são movidas pela razão de seus líderes e pelas urgentes demandas sociais, que são a busca das liberdades e descentralização do Estado por um lado e pela distribuição da riqueza por outro lado.

Estas mudanças vêm direcionando o processo político para uma terceira via.

É nesta via que se encontra o projeto da social - democracia.

Liberais - progressistas, sociais - democratas e socialistas - democráticos, unem-se de forma pragmática para implantar políticas públicas voltadas para o atendimento de tais demandas. Estão aí os exemplos da Suécia, Áustria, Alemanha, Inglaterra e mais recentemente França e Espanha.

No Brasil dos anos 90, emerge um sistema partidário ainda em processo de consolidação e realinhamento com o eleitorado, o qual apesar de avançar de forma lenta e tortuosa, é absolutamente imprescindível para a construção de um regime democrático economicamente fortalecido e socialmente justo.

O PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira, surge como um partido que tenta aprender este novo momento histórico, com um projeto de sociedade, que não tem o mesmo vigor utópico - revolucionário de um partido radical de esquerda, tem demonstrado grande capacidade em construir uma relação madura com a realidade. Onde o projeto da social democracia foi implantado, possibilitou transformações sociais, econômicas e políticas neste país, distanciando-se significativamente das experiências socialistas, em termos de qualidade de vida do cidadão.

Tendo se viabilizado eleitoralmente nas eleições presidenciais de 1989, onde o PMDB, seu partido - mãe demonstrou-se incapacitado em renovar seu discurso, perdendo antigos vínculos eleitorais, o PSDB venceu seu primeiro grande desafio, que era a possibilidade do PMDB se renovar e reverter o fluxo migratório dos votos necessários à viabilização do novo partido.

Encontra-se o PSDB à frente de outro desafio, que é exercer a capacidade de administrar previsíveis e permanentes conflitos internos entre as forças que o compõe. Cabe aqueles que fazem o PSDB lutar obstinadamente para superar esta nova fase de amadurecimento na vida do partido.

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***

 

João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)

É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.


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