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Crises, mídia, Delúbios e Delcídios. O Referendo do desarmamento: a quem interessa?

João Rego

Recife, 15 de outubro de 2005

Já não é nenhuma novidade a posição de impotência que nos cabe, como cidadão, na luta injusta contra as forças do Estado que nos determina o destino, nos limita a forma como vivemos, trabalhamos, desejamos e morremos.

É o preço que se paga para garantir a vida em sociedade.

E assim, entre um Jornal Nacional e outro, entre uma novela e outra, a gente vai tocando a vida. Cada um carregando o fardo cotidiano que lhe cabe.

De vez em quando uma crise nos anuncia que esse Estado Brasileiro tem suas entranhas apodrecidas pela ganância, pela falsidade e pela dissimulação. A classe política - felizmente uma parte significativa desse segmento-, vem com as CPI’s em um processo de tentativa de auto-depuração. O que é bom.

É um buruçu só: robertos jeffersons, severinos, malufs, dirceus, aviões evangélicos cheios de grana, ....., marcos valérios (qual o partido que não tem o seu?), delúbios e delcídios, (ufa!) este último entrou apenas pelo jogo homofônico, é do bem.

Tudo isso propiciando um enorme gozo para intelectuais, imprensa, moralistas e salvadores da pátria, e para nós também. É VEJA, ÉPOCA, ISTO É, JB ,etc. Todos se avexando para ver quem nos traz, de forma bombástica, o escândalo da semana.

Gozamos assim, com a falsa ilusão de que algo está se resolvendo, e que as instituições podem até crescer com as crises. Será?

E a gente ali, tocando a vida como se vivêssemos em universos paralelos.

Na fase final das decisões das CPI’s (são quantas mesmo?) começamos a sentir o mau cheiro da enganação nos rondando. Não há paralelismo nenhum, é o que tento explicar a Bené, minha empregada doméstica que criou as filhas embaixo de uma lona preta de plástico lá em uma invasão em Camaragibe. Cada centavo que se rouba, cada ato de corrupção que se pratica impunemente, é materializado no lado de cá em violência urbana, falta de estrutura para a educação, saúde, transporte e lazer.

Lula pedindo solidariedade aos deputados cassáveis do PT, é dose cavalar! Em que ele se confia para expor de forma tão aberta seu "espírito cívico-solidário"?Talvez na aparente vitória de eleger o amorfo Rebelo para a presidência da Câmara? Ou na nossa frágil percepção, insuficiente em distinguir o que é a realidade do discurso?

Quando a fase final das investigações é para se transformar em ação punitiva, reparadora, surge agora o referendo.

E logo no meio do Jornal Nacional. Servem-nos agora outro prato para nos empanturramos, quando ainda estamos engulhando mensalões.

Quem em sua sã consciência não percebe que estão nos ludibriando. Tiraram de cena as crise políticas de Brasília. Lula retoma solto às suas viagens e discursos. Não agüento mais vê-lo chorando falando da mãe que passou fome. Vocês têm idéia de quantas mães e filhos poderiam ser alimentados com os 14 milhões de dólares que Duda Mendonça ganhou para dar o "lustro na aparência" de Lula para o eleitorado?

Quem decidiu pelo tema? Acho que antes de qualquer referendo dever-se-ia fazer um outro antes para decidir se o tema é relevante.

Está claro que o tema não raspa nem de longe o cerne da violência armada que nos esmaga em nosso cotidiano, enclausurando nossos espíritos de forma irreversível a cada manchete de violência que se lê, a cada agressão que atinge o nosso vizinho.

Então, a quem interessa essa campanha? Quem dela se serve?

Defendo o absoluto boicote ao referendo, como uma forma de reação cívica contra o engodo, a enganação de nos distraírem com uma agenda que tem apenas o interesse escuso de, em nome da democracia, embotá-la em sua essência.

***

João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)

É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.


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