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A violência urbana e suas raízes.

Recife, 31 de Dezembro de 2005

João Rego - jrego@politica-democracia.com)

Recentemente a cidade do Recife foi impactada com a morte do psicanalista Antônio Carlos Escobar, que foi, solidariamente, chamar a atenção de um casal que estava sendo assalto por um adolescente de 16 anos. Este revidou e o acertou com um tiro.

No mesmo dia, uma estudante de odontologia levou um tiro na testa de um outro adolescente que lhe roubara o celular. Esta se encontra em coma.

Não consigo deixar de associar a corrupção, o dinheiro fácil que corre solto entre as figuras investigadas pela s CPI's, desses dois dramáticos eventos. São recursos públicos roubados que poderiam ter sido aplicados na infra-estrutura social.

Temos por um lado, uma sociedade radical e estruturalmente fendida entre os ricos e pobres, e pelo outro, uma cultura do imediatismo e dos interesses pessoais de importantes setores da classe política. Complementa esse cenário, um eleitorado cada vez mais anestesiado em seus confortáveis Shoppings Centers da vida.

Creio que o Estado, em todos os níveis, tem demonstrado uma incapacidade crônica na abordagem das raízes da violência urbana, que cada vez mais nos acua e nos choca.

O modelo de desenvolvimento que aí está já demonstrou que pode produzir riqueza em abundância, a exemplo das exportações da agroindústria, o que falta é compreender os mecanismos que produzem a pobreza, que tornam impermeáveis grandes setores da população, a receber qualquer efeito dessa riqueza sobre suas vidas.

O capitalismo moderno, se por um lado é a grande força geradora de riqueza, por outro, está calcado em princípios que se distanciam da ética e da moral humanista. O acúmulo de capital, o lucro e o mercado atuando como deuses ex-machina desse modo de produção, constroem uma cultura de um consumismo que beira a promiscuidade, obliterando a percepção de nós, privilegiados consumidores, em reconhecer a miséria "pior do que a morte" dos que não consomem, nem são assistidos pelo estado.

A percepção sobre a questão social no Brasil, está um nível próximo do que se experimentava antes das revoluções burguesas do século XVIII, o de que a pobreza era uma fatalidade histórica e planejada por forças superiores ao homem, assim como a lei da gravidade, portanto, inalterável.

A pobreza não é um fenômeno natural, é um fenômeno político, fruto da violência e da violação ontológica dos direitos de um homem sobre o outro.

As intervenções das políticas públicas devem atuar simultaneamente em duas instâncias: a imediata, a repressão eficaz da violência, e a de longo prazo que implica em aprofundar o conhecimento sobre as raízes da violência, e sobre elas agirem com intensidade, de forma sistemática, posto que são estruturas secularmente consolidadas.

Embora fruto de uma trágica perda, o surgimento de uma ação como o Instituto Antônio Carlos Escobar, com o objetivo denunciar e assessorar vítimas da violência urbana, é algo que deve ser apoiado, estimulado e reproduzido. Creio que a sociedade civil tem uma função importante na discussão de questões que aprofundem ou ameacem a democracia na sociedade.

Esta deve ser uma ação que complemente de forma crítica a ação do Estado, porém fundada em conhecimento.

 

***

João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)

É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.


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