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Tecnologia, cidadania e o futuro da democracia


João Rego.

Recife, 11 de Janeiro de 2006

Para grande parte da população o exercício da política se restringe aquela política formal, dos deputados e governantes, a qual, quase sempre - pelo menos no Brasil, - fica no imaginário dessas pessoas como algo asqueroso, repugnante, que temos que suportar no nosso cotidiano, já tão cheio de problemas.

O desconforto é ainda maior quando sabemos que tudo é pago com o esforço do nosso trabalho, através dos impostos.

Essa sensação, embora seja injusta com parte importante dos políticos que nos representa, encontra certo respaldo no fato de que, antes mesmo das diferenças ideológicas: progressistas, conservadoras ou moderadas demarcarem o espectro político-ideológico, existe uma instância muito superior e bem mais poderosa do que essas.

Estou falando do conflito estrutural que sobredetermina toda a sociedade: a classe política e a sociedade civil.

Embora haja, no limite da intersecção dessas instâncias um emaranhado de interesses que se interpenetram – citamos apenas como exemplo, o caso dos empresários que financiam campanhas-, é muito evidente essa separação, em todas as sociedades.

Quanto maior for o distanciamento dos interesses da classe política em relação à sociedade civil, maior a insatisfação dessa, devendo ser descarregada nos episódios eleitorais periódicos, que em uma democracia serve como função reguladora da classe política.

Isso é assim em todas as democracias modernas. Não existe sociedade sem essas duas instâncias: classe política e sociedade civil. É o preço que pagamos para sair da barbárie, embora ela sempre esteja nos espreitando, como uma pulsão que não cessa nunca, insistindo em voltar. Basta lembrar das guerras e dos crimes.

Nas eleições, é outra luta fica injusta, pois o cidadão se encontra em desvantagem, uma vez que os políticos se munem dos marketeiros e suas pesquisas, para ajustarem seus discursos exatamente no alvo das nossas insatisfações.

O momento pós-eleitoral seguido do exercício do mandato fica quase sempre esquecido, por parte do cidadão comum, absorvido muitas vezes em um cotidiano insuportável, restando à imprensa sua fiscalização sistemática. Esta, outra instância de poder importante em uma democracia, porém também muito longe do alcance do cidadão.

A Internet, fenômeno tecnológico que vem transformando a sociedade com uma velocidade nunca vista na história, se apresenta como importante ferramenta de ação política. Assim, como ela está revolucionando a produção, os mercados e a comunicação, deverá ser o principal mecanismo de pressão e controle da sociedade civil sobre a classe política, principalmente no período do exercício do mandato.

A tecnologia, como já fez antes em outros momentos da história, destruirá as velhas redes de dominação arcaicas que insistem em se reproduzir a cada legislatura, a cada mandato.

A poderosa comunicação capilar da Internet, através do e-mail, seu baixo custo, facilitando o acesso cada vez maior dos cidadãos, uma vez organizados em uma ação convergente para a transformação social, irá radicalmente mudar tudo que se tem hoje em termos de representação política, gestão pública e poder.

Ao trabalho, pois.

***

João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)

É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.

 

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