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Partido político e dominação no Brasil pós-79.
João Rego
Artigo publicado no Jornal do Commercio em 16 de abril de 1994
Aquele que se interessar em estudar o fenômeno partido político,
irá encontrar sobre esse objeto uma diversificada gama de definições
que variam de acordo com a formação ideológica e
com os interesses de quem procurou defini-lo. Desta forma, é possível
encontrar desde a visão liberal do partido como instrumento de
representação legítima da sociedade civil, até
o conceito de partido como principal meio de transformação
revolucionária da sociedade.
Situando-o em uma percepção do processo político
como sendo, essencialmente, uma relação de dominação
de uma elite política sobre a sociedade civil, o partido político
assume o papel de principal meio de conquista e reprodução
do poder por parte de uma elite política em uma sociedade moderna.
Essa exposição pretende atingir a falsa visão de
que no Brasil não existem, ainda, partidos políticos organizados.
E o mais impressionante é que são políticos e jornalistas
dos mais "ilustrados" que repetem ad nauseaum esta afirmação,
numa demonstração evidente de que a desatenção
teórica e empírica sobre a realidade pode nos conduzir a
uma situação onde se é obrigado a conviver com meias
ou falsas verdades como se estas representassem a realidade.
Tal tipo de procedimento compromete a já frágil, porém,
sempre necessária, crença na legitimidade que a sociedade
civil empresta à classe política, transmitindo a impressão
de que a democracia está incompleta e só poderá resolver
os graves problemas sócio-econômicos quando toda a estrutura
política estiver implantada.
A verdade é que, se analisarmos os partidos políticos no
Brasil pós-79, sob a ótica da sua essencialidade , principal
meio de conquista e reprodução do poder por parte da elite
política em uma sociedade - e esta é a única ótica
que deve interessar à ciência -, se observará que
estes vêm cumprindo suas funções de forma extremamente
eficaz e estruturada na sociedade. Pode-se inferir, inclusive, que não
se deve esperar dos partidos políticos mais do que isso que nós
já temos. Mudanças na legislação eleitoral
evidentemente que poderão fazer alguns retoques, mas não
alterarão suas funções essenciais.
É importante que a classe intelectual, representante dos diversos
setores organizados da sociedade, comprometidos com as transformações
em favor da grande maioria da população, convirjam suas
preocupações, prioritariamente, para o processo de organização
da sociedade civil, esta, sim, ainda estruturalmente desorganizado e,
portanto, facilmente manipulável em seus interesses e desejos por
parte da elite política.
A democracia está estruturalmente concluída (não
precisamos de novos impeachments e CPI's para se convencer disto).
Boa ou ruim, é isto que está aí. Nada mais se deve
esperar em termos de formação de suas instituições.
Estas já atingiram a sua maioridade. (É certo, porém,
que existem pessoas adultas completamente irresponsáveis). Os graves
e urgentes problemas de ordem sócio-econômica estão
nos desafiando para serem superados no momento operativo em que se encontra
a democracia no Brasil. E este é o ponto crucial de todo o processo
político, pois, inevitavelmente emergirão, com maior intensidade
ainda, os conflitos de interesses de classes, onde o leit motiv será
a distribuição da riqueza, que passa necessariamente pelo
redimensionamento do poder.
Desviar a atenção deste enfrentamento é, no mínimo,
satisfazer (consciente ou inconscientemente), os interesses daqueles que
se beneficiam da situação de desequilíbrio e miséria
social. Este adiamento projeta nossa democracia a se reproduzir no futuro,
como um modelo limitado de democracia, enquanto incapaz de gerar transformações
radicais na estrutura sócio-econômica, que possam libertar
das amarras da fome e da ignorância milhares de brasileiros.
***
João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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