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O fim do voto obrigatório no Brasil.
João Rego
Recife, 28 de novembro de 2005
A história da legislação eleitoral no Brasil, é
a história dos casuísmos e subterfúgios da elite
política contra a efetiva participação da sociedade
civil no processo de decisão político da nação.
Essa tem sido a sua natureza.
Só ceder na medida em que a pressão da sociedade civil
se tornar insuportável. Durante os regimes autoritários,
a regra era mudar para que as forças democráticas tivessem
adiadas, ao limite máximo, os espaços para a instauração
da democracia. Quem não se lembra dos Senadores Biônicos?
São inúmeros os exemplos que demonstram a nossa tese. O
voto inicialmente era reservado àqueles que tinham posses materiais,
ou seja, os ricos. O voto da mulher foi outra grande conquista que demandou
lutas e pressões por setores esclarecidos da sociedade civil da
época.
Vivemos hoje, do ponto de vista da história das instituições
democráticas, um período que se fundou com a redemocratização
pós-regime de 1964, que após 8 anos de transição
(1982-90), tem sua primeira eleição direta elegendo Collor,
em 1990.
Durante todos esses processos eleitorais, que marcaram, para o bem e
para o mal, nossa história, um mecanismo de coerção
os perpassa de forma escandalosa, marcando tudo que foi construído
em nome da democracia: o voto obrigatório.
A obrigatoriedade do voto agride a essência da democracia, dá
suporte às formas arcaicas de dominação política
- os currais eleitorais -, e turva a prática política, uma
vez que nivela por baixo a qualidade do voto.
Voto ruim, político ruim.
Não se pode falar em reforma política, sem que o voto obrigatório
seja definitivamente extinto. O voto é a instância celular
das instituições democráticas. Comprometa-lhe a qualidade
e estarão comprometendo tudo que dele deriva.
Porque ele tem resistido tanto, se tudo que falamos parece tão
simples e tão lógico?
Porque o voto, assim como um recurso mineral, vale muito para quem vive
da política.
É uma reserva de mercado garantida pela lei. Somos uma espécie
de mercado consumidor aprisionado, que periodicamente é disputado
por uma pequena minoria, a classe política, para produzir os resultados
de uma eleição: a reprodução do poder e do
aparelho político.
Com a instauração do voto facultativo (livre) haverá,
de imediato, um impacto modernizador nas formas arcaicas de dominação
política. Os famosos currais eleitorais terão suas cercas
e porteiras derrubadas. O eleitor terá seu poder infinitamente
aumentado, posto que agora será uma mercadoria rara, que terá
que ser muito bem convencido a se decidir por A ou por B.
A classe política será obrigada a modernizar suas práticas
e discursos de persuasão para se eleger, uma vez que o eleitor
que vai votar, em um sistema de voto livre, é aquele que tem mais
consciência da importância do seu voto.
Um paralelo interessante e esclarecedor pode ser feito com a privatização
da economia. O desafio lançado às empresas, é que
a competitividade, a qualidade dos serviços e produtos destas é
o que vai definir a fatia de mercado que lhes cabe, e não mais
uma empresa estatal, carregada de funcionários ineficientes e distantes
da sociedade civil.
O consumidor, este sumo sacerdote do capitalismo, é disputado
pelas diversas empresas, a realizar, através da compra, os seus
produtos.
Não estamos afirmando aqui, que tudo, tal como em um passe de
mágica, será transformado para melhor. O jogo da dominação
política é duro e carrega características estruturais
que o afasta, e muito, da moral. Certamente haverá resistências,
por parte do atores políticos, a uma mudança dessa natureza.
Mas, com o voto livre a arena política é outra. Seremos
forçados a dar um salto de qualidade, eleitor e político,
introduzindo a nação no seleto clube das principais democracias
modernas do ocidente.
***
João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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