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O Falso fim da ideologia.
João Rego
Recife, 13 setembro 1993
Após a queda do muro de Berlim em 1989, marco simbólico
do fim da guerra fria e passo inicial para a desagregação
da União Soviética em 1991/2, as nações ocidentais
assumem historicamente a hegemonia política e ideológica
para conduzir os destinos da humanidade neste fim de século e entrada
do novo milênio.
Foi o fim de uma experiência de 72 anos em busca da construção
de um modelo alternativo de sociedade, que tinha como principal objetivo
ultrapassar historicamente as graves contradições sociais
e econômicas inerentes ao modo de produção capitalista.
A revolução de 1917 representou uma traumática fratura
no desenvolvimento e no próprio processo evolutivo do capitalismo.
Com ela, se demonstrou que a humanidade não era um mero joguete
nas mãos de uma classe que detinha o controle histórico
dos meios de produção; que de objeto passivo, a classe trabalhadora
podia ser transformada em sujeito ativo de sua história e de seu
destino.
É necessário esclarecer que uma das fragilidades do marxismo
foi subestimar os anseios e desejos do indivíduo, os quais mesmos
pertencentes a uma classe, e mesmo tendo fortalecida sua consciência
de classe, estes possuem certos desejos de caráter ontológico
que transcendem a própria superação de contradições
sociais e econômicas. Entre eles, o da liberdade e da pluralidade
de pensamento. Deve-se reconhecer entretanto, que as condições
históricas do começo do século XX, onde a sociedade
civil ainda era fluída e amorfa e o Estado era o supremo condutor
de todo o processo social, não permitiam que as necessárias
transformações revolucionárias no modo de produção
capitalista ocorressem num regime político aberto.
Sem querer justificar a grotesca ditadura da era stalinista, não
se pode deixar de reconhecer que a experiência "socialista"
exerceu um poderoso papel de regulação e modernização
das relações entre capital e trabalho no mundo ocidental.
Afinal a União Soviética representava, não apenas
uma ameaça com o seu projeto de expansão sobre outras nações,
mas principalmente um modelo de sociedade alternativo ao capitalismo que
dava a demonstração, pelo menos no campo econômico
e bélico, de autonomia e firme consolidação.
Outro aspecto importante é que a luta da classe trabalhadora da
Europa ocidental, em busca de espaços políticos que garantissem
transformações estruturais na sociedade, tinha seu leit
motiv profundamente sintonizado com os aspectos teóricos e ideológicos
do movimento político conduziram a revolução na União
Soviética. Este foi o caso da social democracia, que apenas a partir
da década de 30 começou a dar sua guinada ideológica
para reconhecer que tais transformações poderiam ocorrer
dentro do próprio modo de produção capitalista.
O capitalismo das modernas democracias ocidentais evoluiu carregando
em seu próprio ventre ( e carrega até hoje) a constante
superação dialética das lutas ideológicas
entre forças historicamente antagônicas: o capital e o trabalho.
Luta esta, que por parte da classe trabalhadora, teve gradativamente sua
estratégia mudada, ultrapassando o conceito da "guerra de
movimento" cujo objetivo era tomar de assalto o Estado e superar
revolucionariamente o capitalismo, para a "guerra de posição",
que tem como estratégia obter - através do consenso da sociedade
civil e pela via eleitoral - o poder político para avançar
nas conquistas e transformações sociais em favor da grande
maioria da população: a classe trabalhadora.
É, portanto, um erro se imaginar que após a desestruturação
da experiência em busca do socialismo no Leste Europeu, teve-se
o fim das ideologias, como vem preconizando os teóricos do neoliberalismo.
O capitalismo afinal, possui dentro do seu modo de produção,
graves falhas estruturais que continuam reproduzindo mecanismos geradores
de miséria, separando a sociedade em classes. E é na ideologia
e através dela que uma classe pode exercer hegemonia sobre as outras,
assegurando a adesão e o consentimento das grandes massas em um
processo dinâmico e incerto ao longo da história. A ideologia
detém assim a função da dar coesão à
própria sociedade.
Ora, se uma classe detém a hegemonia do processo político-social,
e esta hegemonia é mantida e renovada para garantir o próprio
controle do Estado, - que por sua vez é sociedade política
(coerção:burocracia executiva e aparelho policial civil
e militar) e sociedade civil (consenso:escolas, igreja,imprensa, sindicatos,
partidos, meios de comunicação,etc.) - este papel hegemônico
só poderá ser materializado através da ideologia.
O grande salto de qualidade dado pela humanidade após a queda
da experiência do Leste Europeu, e isto é verdadeiramente
revolucionário, é que os conflitos de natureza ideológica,
passam a se dar em um novo patamar histórico social, onde é
reconhecido o pressuposto da democracia como valor universal.
***
João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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