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Eleição e a Formação da Cidadania.
João Rego
Artigo publicado no Jornal do Commercio em 29 de julho de 1997
Se voltarmos os olhos para os últimos anos do processo político
no Brasil, podemos distinguir dois momentos relevantes que fundam nosso
momento político atual: o primeiro, o momento da transição
para a democracia que foi de 1979 (com a lei de anistia e reativação
do multipartidarismo) até 1989 (eleição direta para
presidente), e o segundo é o que podemos chamar do momento operativo
da democracia, que teve início com as eleições presidenciais
de 1989.
Momento operativo da democracia
A principal característica deste último é o fato
de já termos todas as instituições que fazem uma
democracia, consolidadas estruturalmente. Os partidos políticos
que surgiram e vêm se estruturando ao longo de quase duas décadas,
é a maior prova desta afirmativa.
O sistema partidário brasileiro está estruturalmente consolidado.
Exceto por ajustes na legislação eleitoral, não se
deve esperar mais dele do que já vimos tendo. A questão
da democracia já não depende da institucionalização
de alguma instância que esteja por se implantar.
O desafio está em aprimorar a qualidade deste momento operativo,
aprofundando e expandindo as diversas formas de ação política
capaz de gerar transformações, aprofundando a democracia
e espalhando seus efeitos por toda a sociedade.
O sentido destas transformações deve, simultaneamente,
garantir o atendimento das demandas sociais básicas e o fortalecimento
da sociedade civil na sua permanente e indissolúvel relação
dialética com a classe política.
O grande desafio a tudo isto é o fato de mesmo com uma democracia
institucionalizada, nos melhores moldes do liberalismo, a nação
encontra-se ainda impotente para resolver o grande fosso de miséria
social que nos agride, e como um sintoma demanda uma compreensão
sobre suas causas forçando saídas.
Cidadania e democracia radical
O conceito de democracia radical, utilizado por vários intelectuais
progressistas europeus, é basicamente construído na constatação
da impossibilidade (após a desestruturação do leste
europeu) de se viabilizar novas formas de organização social
e econômica, que não estejam subordinadas ao capitalismo.
A estratégia está em reconhecer que valores da democracia
liberal - tais como igualdade e liberdade - são potencialmente
formas de se aprofundar e expandir uma prática política
capaz de transformar radicalmente (para melhor) as relações
sociais. Reconhece-se que tais valores, propugnados como a base do liberalismo
representam na vida real das pessoas apenas aspectos formais e de retórica,
sem penetrar no universo do real e no cotidiano dos sujeitos políticos.
O conceito de cidadania, assim deve ser repensado: "Um cidadão
não pode ser propriamente concebido independente da sua inserção
na comunidade política em que vive. ...Um cidadão
democrata-radical deve ser um cidadão ativo, .... alguém
que se conceba como participante de um esforço coletivo de ação
política." (MOUFFE, 1992, p. 4).
Assim o conceito de democracia radical, se impõe como uma importante
alternativa para as forças progressistas com a seguinte rationale:
já que não se pode esperar uma nova organização
social diferente do capitalismo, a ordem é aprofundar e fazer valer
os valores clássicos da democracia, tais como liberdade e igualdade.
Neste sentido a formação da cidadania assume uma dimensão
revolucionária, estruturante para que para as transformações
sociais possam ocorrer de forma perene e multiplicadora.
Eleições e cidadania
Diante disto, onde situar o papel das eleições como um
espaço capaz de avançar na construção dessa
cidadania no Brasil?
Podemos perceber que no processo político e social do Brasil,
- e por aproximação os de todos os países da América
Latina que enfrentam o desafio de se consolidar como democracias -, há
vetores de ação política que permeiam a nossa cultura,
os quais como em um movimento errático lutam por conseguir expressão
no espaço político, forçam decisões políticas
e sociais para definirem um sentido.
Uma eleição pode representar um desses momentos capaz de
avançar e dar sentido a vários desses vetores político-sociais
guiando-os a um patamar qualitativamente superior em termos de cidadania.
Porém, o contrário pode ocorrer: a eleição
pode ser um momento onde as forças arcaicas de dominação
joguem para se reproduzirem e fortalecerem sua ação política
no sentido contrário da cidadania, pois quanto menos cidadania,
menos participação política, e portanto, mais isolado
e impotente para mudar a realidade na qual está imerso, o sujeito
se situa. Este sentimento de impotência e de isolamento social crônico
que constitui o cidadão brasileiro, é o principal ambiente
onde germinam as práticas arcaicas de dominação política,
tão prazeirosamente gozadas por parte predominante da elite política
nacional.
Não importa o quanto essas forças se apresentem como modernas,
comprometidas com reformas substantivas ou sensíveis ao drama social
brasileiro: sua participação no executivo e no legislativo
tem demonstrado como ainda são movidas pelas manobras e barganhas
destinadas a tirar proveito de recursos públicos ou das necessidades
de legitimação dos governantes progressistas a elas aliados.
Neste aspecto tais vetores são impossíveis de serem isolados
em tal ou qual partido, em tal o qual ONG, ou em qualquer outro sujeito
político que atua na sociedade. Eles interpenetram todas estas
entidades com seus traços de ação política
conservadora ou progressista e fundam suas estruturas operativas. As conservadoras,
resistindo com todas as forças a qualquer mudança que altere
as condições ambientais favoráveis a sua reprodução,
e as progressistas lutando para a construção de novos espaços
onde uma nova cultura política possa vir a se instalar.
Muitas vezes, em um mesmo organismo político, convivem lado a
lado vetores antagônicos como se fosse à coisa mais natural
do mundo. Um exemplo pode ser tirado sem muita dificuldade da prática
política de um partido progressista - a princípio e por
natureza, árduo defensor das estruturas operativas progressistas
-, onde sua ideologia e prática de ação política
externa são exercidas em um sentido e suas práticas internas
de organização e distribuição do poder é
orientado no outro sentido.
Outro exemplo: um candidato progressista, bem intencionado, com um vasto
currículo pela luta em favor da democracia, pode em certo momento,
assumir atitudes durante uma campanha eleitoral que reneguem toda à
sua existência, e essência como político.
Assim, a distribuição de uma simples camiseta, ou um discurso
mistificador, podem representar importantes sintomas de uma prática
política conservadora e retrógrada, sem absolutamente nenhuma
possibilidade de diferenciá-la das práticas de um político
conservador, até porque em essência são exatamente
da mesma natureza, e jogam no mesmo sentido: contrário à
construção da cidadania.
Qual o papel que cabe ao cidadão comum? Ficar atento a essas práticas
conservadoras, deve ser uma obrigação, um primeiro requisito
para o exercício da cidadania, e atento significa domar um pouco
a paixão que nos identifica a tal ou qual político ou partido
ou, o que é mais comum, com a postura de omissão e descrença
crônica diante de tudo que vem do político.
O que o Movimento Política e Democracia propõe,
é que através da militância da cidadania, e utilizando
os poderosos recursos de comunicação disponíveis
na Internet, o cidadão comum, pode sair do seu cotidiano passivo
e se transformar em um vetor político importante de aprofundamento
da democracia.
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MOUFFE, Chantal. "Democratic Politics Today",
prefácio a Dimensions of Radical Democracy. Pluralism, Citizenship,
Community. London, Verso. 1992. p. 3.
LACLAU, Ernesto e MOUFFE, Chantal. 1985. Hegemony and Socialist Strategy.
Towards a Radical Democratic Politics. London, Verso
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João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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