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A Dessacralização do PT


João Rego.

Recife, 2 de junho de 2005.
Artigo publicado no Jornal do Commercio em 23 de junho de 2005

É bastante conhecida, para quem estuda partidos políticos e sistemas partidários, a tendência ao deslocamento ideológico da esquerda para o centro, dos partidos progressistas quando assumem o poder.

A realidade social, com suas vicissitudes, atua contra os desejos de quem governa. Esta tem o poder de dissolver aquela visão idealizada da política e seus destinos.

A estratégia, para quem está no poder, é governar encarando de frente este novo e ameaçador ambiente, procurando materializar com efetividade as políticas públicas apresentadas na campanha, sem se afastar do eixo ético- ideológico que fundou o partido.

Governar, garantindo sua identidade, mesmo diante da necessidade de estabelecer alianças e coalizões com outros partidos, é um imperativo para qualquer partido estruturalmente consolidado.

A identidade do PT tem sido construída ao longo dos anos como a de um partido imune às práticas fisiológicas, inaceitáveis em uma democracia minimamente consolidada.

O PT que teve sua origem na fusão do movimento sindical com intelectuais de esquerda no início nos anos oitenta, tem conseguido canalizar, ao longo do tempo, os anseios e esperanças daqueles que insistem em colocar na agenda política da nação a construção de uma realidade social com maior distribuição de justiça e de riqueza.

As recentes denúncias (provas) de corrupção (Valdomiro, Correios, e os execráveis Robertos Jeffersons ) e o comportamento fisiológico dos dirigentes do partido contra a CPI dos Correios, é a ponta de um iceberg que demonstra como o exercício do poder deslocou, de forma irreversível, o PT dentro do espectro ideológico para um setor mais conservador, o que era previsível. O maior prejuízo, entretanto, é reconhecer que tal prática feriu mortalmente sua história e sua identidade, principal patrimônio político que o distinguia de todos os outros partidos.

Aí reside a tragédia para o PT, mas, paradoxalmente pode representar um ganho para a sociedade.

Para o militante e o intelectual que ainda alimentam o seu cotidiano com doses diárias de utopias e idealismos, isto representa uma tragédia. Tragédia no sentido do abandono, da perda de algo que lhes nutria a existência. Entretanto, para a sociedade civil, essa dessacralização do PT tem como conseqüência um razoável salto de qualidade na sua relação com a classe política, forçando-a a conviver com a verdade efetiva das coisas (Maquiavel).

A verdade é que esta relação é fundada na dominação de uma sobre a outra, a classe política sobre a sociedade civil. São entidades que têm suas existências estruturalmente fundadas uma na outra.

Os partidos políticos representam, em sua essência, o principal instrumento legal de reprodução desta dominação. Neste cenário, marcado por certo mal-estar indissolúvel, posto que não se pode abrir mão das instituições políticas em uma democracia, quanto mais mitos forem destruídos mais sólida e moderna será a base desta relação.


***

João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)

É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.

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