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Os Desafios da Democracia


João Rego
Artigo publicado no Jornal do Commercio em 9 de Setembro de 1994

Em um regime democrático, as demandas e desafios, tanto para a classe política como para a sociedade civil, exigem bem mais maturidade política que nos regimes autoritários ou nos de transição para a democracia.

Diferentemente do autoritarismo, onde se vivia e morria por grandes causas, capazes de incendiar de paixão o imaginário das pessoas, em uma democracia corre-se o risco de se conviver com o mais terrível dos males que pode acometer o ser humano: o tédio, a desesperança e a mesmice, conseqüência da constatação de que podemos ser obrigados a conviver com altos níveis de mediocridade no processo político, as vezes insuportáveis.

Mas democracia, frequentemente, pode ser isto mesmo!!!

É exatamente sobre este cansaço cívico que pretendemos refletir.

É importante ultrapassarmos certas certezas construídas ao longo de toda uma geração que lutou contra o autoritarismo e que ardeu de paixão política pela volta da democracia no país. O determinismo, tirado não sei de onde, que nos motivava a acreditar, quase que num gesto de fé, no fim do regime autoritário, foi substituído pela incerteza.

É a incerteza, uma das principais características de uma democracia. A cada processo eleitoral, a cada início de um novo governo, a sociedade experimenta momentos de incerteza em seu cotidiano.

Outro aspecto fundamental é conviver com a reversibilidade das ações políticas. Quaisquer que sejam as transformações viabilizadas por um partido, quer sejam na esfera social, política ou econômica, podem ser anuladas, atenuadas ou redirecionadas pelo partido opositor quando no poder.

Ora, nada mais gerador de inquietação no ser humano do que conviver em um espaço social onde se está envolvido pela incerteza e pela reversibilidade das ações políticas que afetam as nossas vidas.

A democracia se estrutura dinamicamente através de um movimento progressivo/ regressivo interminável que se instala na sociedade. É neste processo que se dá o conflito das ideologias dos diversos vetores sociais, materializando, temporariamente, o seu vencedor através da conquista do poder político.

Portanto, para qualquer cidadão, a democracia lança este desafio: incorporar na sua vida, com maturidade, a desconfortável sensação de conviver com a incerteza e com mudanças no poder político que nem sempre nos agradarão. Mas esta é a regra do jogo. Convoca-se também, cada um de nós a conviver com causas políticas que se não têm o impacto das grandes causas vividas durante o regime autoritário, possuem a capacidade de nos colocar diante de uma realidade política menos mistificadora, e portanto, mais real.

Exige-se dos agentes políticos uma ação transformadora da realidade política e social que se dê no cotidiano da sociedade, de maneira às vezes imperceptíveis, mas permanente.

***

João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)

É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.


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