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Democracia, crise e estabilidade política.
João Rego.
Recife, 29 de junho de 2005.
É freqüente, todas as vezes que o país está
enfrentando uma crise política, o discurso de que estamos mesmo
é precisando de um "regime mais forte", numa alusão
nostálgica ao período do regime autoritário de 1964.
A consolidação estrutural de uma democracia demanda um
enorme esforço, muita paciência e arte, de todos: intelectuais,
políticos, empresários, trabalhadores, artistas e do cidadão
comum.
Democracia é também uma palavra carregada de falsos e idealizados
valores, como se essa fosse um estado a ser atingido. Estabilidade política,
justiça social, distribuição da riqueza e muito mais
estavam nos esperando ali na curva da história, quando encerrássemos
os anos de chumbo.
Muitos deram à vida acreditando nisso.
Éramos obrigados a construir essas crenças para suportar
um cotidiano esmagado pela falta de liberdade e repressão política.
Não havia alternativa.
Democracia, ao contrário, é um processo, muito mais do
que um estado final a ser atingido. Ela é o caminho interminável
de uma jornada, não o fim da jornada. Aliás, não
há fim de jornada. O fim seria a morte da democracia. É
preciso caminhar, sempre.
O importante é o sentido dessa caminhada.
Esse é a luta incessante pelo fortalecimento das instituições,
pela organização da sociedade civil e por mecanismos eficazes
de controle sobre a classe política.
Nada é estável no sentido pleno da palavra, a estabilidade
é, no máximo, a garantia de certa previsibilidade do funcionamento
das regras do jogo e das ações dos atores políticos,
econômicos e sociais. Todos, entretanto, atuam em um cenário
dinâmico, turbulento às vezes, onde a força que os
move nem sempre é o interesse pelo bem comum, mas os de cada grupo
ou classe, isso sem contar as ações escusas e imorais que
têm na corrupção seu mais forte traço na cultura
política da nação.
São esses interesses escusos e práticas administrativas
criminosas que um ‘regime mais forte’ nos impede de perceber,
dando aquela falsa sensação de que naquele tempo a coisa
era diferente. Em um ambiente político livre, aberto, tudo, ou
quase tudo é desvelado, exposto, muitas vezes com uma crueza que
nos atordoa, mas é assim que somos.
Portanto, a crise - de maior ou menor tamanho -, ao contrário
do que o senso comum nos indica, deve ser encarada como uma forte lembrança,
um desafio, de que estamos ativos na caminhada.
***
João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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