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Ciência Política e Democracia no Brasil
João Rego
Artigo publicado no Jornal do Commercio em 16 de Março de 1994
A compreensão do processo político de uma sociedade moderna
é condição fundamental para o aperfeiçoamento
das suas instituições políticas e sociais.
Na área da ciência política, quanto maior for a produção
científica sobre os componentes estruturadores do processo político
em uma sociedade, tais como: partidos políticos, ideologia, sociedade
civil, elite política, imprensa e meios de comunicação,
dentre outros, mais fortalecida esta se apresentará, possibilitando
a manutenção de um ambiente favorável à consolidação
de um regime democrático moderno.
No Brasil, por mais conhecimento que se tenha produzido sobre a realidade
política e social, ela apresenta ainda um universo desconhecido
a ser (re)descoberto através da investigação científica.
Como conseqüência desse desconhecimento sobre os mecanismos
que regem as relações políticas no regime democrático
que a nação vem experimentando desde o início da
década de 80, ainda é predominante na sociedade uma cultura
política favorável à reprodução de
formas arcaicas de dominação política.
O clientelismo, a corrupção, respaldada pela impunidade,
dentro e fora do aparelho do Estado, são traços culturais
fortemente enraizados na prática de reprodução do
poder por uma parte significativa da elite política nacional. A
permanência de tais formas de dominação política
no recente processo de democratização pode vir a inviabilizar
o projeto de transformação da nação em uma
democracia moderna, socialmente mais equânime, politicamente democrática
e economicamente forte e influente no cenário político internacional.
Observa-se ainda a existência de um frágil vínculo
de credibilidade entre a sociedade civil e sua elite política,
comprometendo o fortalecimento do sistema político nacional. Isto
ocorre apesar do Brasil vir experimentando vários processos eleitorais,
desde 1982, os quais, em grande parte, transcorridos em um ambiente com
características democráticas comparáveis às
das democracias ocidentais modernas.
Ampliando a visão para o cenário internacional, observa-se,
na última década, uma acelerada transformação
dos regimes autoritários em busca de canais que os viabilizem como
regimes democráticos. Com a crise do Leste Europeu, culminada com
a dissolução da União Soviética, essa tendência
se universaliza.
Na tentativa de transformar suas economias planejadas em economias de
mercado, percebe-se nas ex-repúblicas soviéticas um forte
anseio por implantar os principais mecanismos fundamentadores das democracias
ocidentais. Esse efeito transformador vem repercutindo em outros continentes,
onde ainda predomina a existência de regimes autoritários
ou onde a democracia se apresenta de forma frágil e instável.
Compreender e investigar cientificamente tais fenômenos políticos,
em curso nos mais distintos países, quer seja estudando as experiências
de institucionalização de regimes democráticos, quer
seja aprofundando a compreensão sobre os valores fundamentadores
das nações democráticas já consolidadas, representa
uma importante contribuição para a reflexão e a tomada
de decisão sobre o próprio processo de consolidação
da democracia no Brasil.
Após haver ultrapassado importantes obstáculos (sendo o
maior deles o impeachment do Presidente da República, por corrupção),
na construção de um espaço democrático onde
a sociedade brasileira possa aperfeiçoar suas relações
políticas e sociais, a democracia no país já apresenta
uma significativa história eleitoral, dando condições
favoráveis à criação de uma entidade com capacidade
de aglutinar, e pôr à disposição do público
interessado uma massa de dados decorrentes dos diversos processos eleitorais
realizados no País, como também de processos eleitorais
de outras nações, possibilitando a compreensão da
formação do sistema político nacional também
sob a perspectiva da política comparada.
É diante deste quadro político-institucional que se propôs
a criação do CELINT - Centro de Estudos Eleitorais Internacionais,
com o objetivo de estimular a ampliação do conhecimento
científico, através da pesquisa social, sobre o desenvolvimento
do processo político nacional, centrando seus esforços sobre
Partidos Políticos, Eleições e Sistemas Eleitorais
e Comportamento Eleitoral, agregando também ao conhecimento da
realidade política brasileira as experiências de institucionalização
e funcionamento da democracia em outros países.
Surgido do esforço conjunto de três entidades envolvidas
com a pesquisa social no campo da Ciência Política, que são:
a FUNDAJ - Fundação Joaquim Nabuco, o IPESPE - Instituto
de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas; e a UFPE -
Universidade Federal de Pernambuco, o CELINT - Centro de Estudos Eleitorais
Internacionais - funcionará na FUNDAJ em Recife.
***
João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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