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A Construção da Democracia
João Rêgo
Recife, terça-feira, 11 de julho de 1989-JORNAL DO COMMERCIO
Para aqueles que viveram os anos difíceis do Regime Militar de
64, é extremamente preocupante o atual discurso que começa
a se instalar na classe média esclarecida e na opinião pública
em geral: o de que o Brasil não tem tradição partidária.
Tentam passar uma opinião de que os políticos, em sua maioria,
são volúveis (e são!) criando a impressão
de que, com raras exceções, (os partidos ideológicos
de esquerda) os partidos políticos estão fadados à
ineficácia e a desempenharem um papel muito aquém da sua
importante missão em um processo político democrático.
Na verdade é necessário, antes de tudo, separar os membros
que compõem uma instituição como o poder legislativo,
da própria entidade em si. Os homens que fazem à política
têm sua participação no processo político de
forma transitória, ou seja, o povo os elege, o povo pode substituí-los.
A instituição pelo contrário, deve ser vista como
uma entidade perene que deve existir ao longo da história de uma
nação que se pretende democrática. Quanto mais sólida
e eficaz, mais estabilidade e equilíbrio político, econômico
e principalmente social, uma nação poderá construir.
É importante nos conscientizarmos que quanto à qualidade
dos homens que lá estão, o principal responsável
é o próprio povo. Se a qualidade não nos agrada,
façamos um esforço de alternar-lhe para melhor. Esta é
a principal finalidade das eleições. Nunca, jamais, devemos
pensar em extinguir, mesmo que inconscientemente, a instituição
(poder legislativo) em si. Seria como cortar uma grande árvore
porque seus frutos estão podres. Vamos cuidar da árvore!
Aliás, são estes métodos que distinguem uma Nação
civilizada de uma republiqueta qualquer.
Neste ponto, é que os partidos políticos têm institucionalmente
uma grande missão a cumprir, desempenhar o papel de principal meio
de comunicação, expressão e canalização
entre a sociedade civil e o Estado. A questão da falta de tradição
partidária é um grande equívoco (ou será um
discurso das elites?) e só serve para confundir e desorganizar
o eleitorado. O que houve é que desde o início da nossa
República, as elites se apossaram do poder e de todo o processo
político, tendo ocorrido apenas, entre 1945 e 1964, em conseqüência
de décadas de lutas organizadas pela classe trabalhadora e do surgimento
de uma classe média urbana mais esclarecida, havido um período
de existência daquilo que poderíamos chamar de democracia
relativa (o PCB era ilegal).
Foi nesse período que surgiu O Sistema Partidário Brasileiro,
o qual teve seu nascimento com 13 partidos ativos, e já no início
da década de 60 passava por uma fase natural de definição
e de realinhamento com o eleitorado.
Ora uma nação como a nossa que possui em seu bojo graves
contradições sociais, é evidente que em um ambiente
democrático, tudo isto venha a emergir, institucionalizando os
anseios e as demandas das classes marginalizadas socialmente. Esta canalização
se dará ou através de partidos políticos ou através
de grupos de pressão. A classe média, entretanto, junto
com os militares, com suas lentes ideológicas desajustadas e foscas,
só conseguiram ver o caos e a anarquia, enquanto que por outro
lado, as esquerdas perderam o seu ponto de equilíbrio imaginando
que o Brasil poderia dar um grande salto na história, quando na
realidade o processo de restruturação político e
social é que tentava avançar e se consolidar.
Perderam todos.
Agora, quando a Nação faz 100 anos de República,
temos de novo um cenário extremamente favorável, como nunca
tivemos antes, para definitivamente consolidarmos um país democrático
e socialmente justo. Cabe ao povo escolher!
Esta escolha se dará na eleição para presidente
em novembro e dezembro deste ano, se escolhermos um presidente sem passado,
sem partido e cheio de promessas fáceis, estaremos optando pelo
desconhecido caminho da involução histórica, demonstrando
que mesmo com 100 anos de República ainda somos uma nação
que se nega a construir seu futuro. Por outro lado, se optarmos por candidatos
que tenham importantes serviços prestados ao processo de reconstrução
democrática e principalmente tenham capacidade de aglutinar forças
políticas capazes de dar sustentação ao avanço
do processo de consolidação democrática, possibilitando
mudanças nas velhas estruturas econômicas e sociais. Aí
estaremos efetivamente optando pela construção de uma Nação
democraticamente moderna, economicamente eficaz e socialmente justa.
***
João Rego é psicanalista e mestre em ciência política.(jrego@politica-democracia.com)
É o coordenador geral do Instituto Política e Democracia: Cidadania e Transformação Social na América Latina e no Caribe.
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