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A sociedade da mercadoria
Antônio Júlio de Menezes Neto : antoniojulio@uai.com.br
O capitalismo é o sistema, por excelência, produtor de mercadorias,
reproduzindo-se no e para o mercado. Marx, em "O Capital", ao
realizar a crítica a este sistema, diz que somos dependentes da
mercadoria, e não o contrário. Ou seja, o ser humano tornou-
se uma consequência da produção de mercadorias.
Assim, neste sistema, se "o país" produz muito, terá
como consequência o aumento de seu PIB, de seus impostos, a criação
de empregos e a possibilidade de novos consumos. É o reino do consumismo
definindo a vida dos seres humanos.
Observem como os indivíduos tornam-se dependentes da produção
de mercadorias: se o país crescer, leia-se, se produzir muito,
terá o seu emprego e sua possibilidade de entrar no mundo do consumo.
Ou seja, o ser humano, que pelo seu trabalho é o criador de toda
mercadoria, torna-se um dependente desta.
O seu emprego e o seu consumo torna-se dependente da produção
e circulação das mercadorias que ele produz. Assim, o objeto,
representado pela mercadoria, subjugou o ser humano; vivemos em um mundo
no qual a desumanização e a alienação são
constantes nas relações sociais.
Além destas questões, a mercadoria é capaz de definir
nosso status social. Vejam como as pessoas são definidas pelo seu
carro, suas roupas, enfim, seus hábitos de consumo. O dinheiro,
elemento base nas relações de troca de mercadorias no sistema
capitalista, assume ares de misticismo.
É como se ele tivesse vida própria e não fosse produto
de relações sociais complexas, contraditórias e,
quase sempre, envolvendo a exploração do trabalho humano.
Ele, o dinheiro, deixa de ser o meio e torna-se o fim da sociedade produtora
de mercadorias.
Assume vida própria e, mais uma vez, o ser humano é subjugado.
Mas a grande questão é: o que produzimos? Para quem? Para
quem serve? É interessante observarmos que essas questões
não são debatidas.
Os aumentos da riqueza, do PIB, da produção e da arrecadação
são metas a serem alcançadas independentes do que é
produzido. O importante é produzir e consumir, não importa
o quê e nem para quê.
Não interessa a devastação da natureza e o consumismo
desenfreado e sem sentido. Interessa, ao capital, o consumo. Estas discussões
teóricas servem como crítica ao sistema social, econômico
e político assumidos, inclusive, pela hegemônica nova esquerda
mundial.
Esta nova esquerda não discute a produção e reprodução
do capital e as relações sociais advindas no sistema capitalista.
Não debate a alternativa socialista. Mas algumas pessoas estão
cansando. Pedem um novo mundo e dizem ser possível.
Se a esquerda voltasse ao velho Marx, veria sua defesa de que "a
estrutura do processo vital da sociedade só pode desprender- se
do seu véu nebuloso e místico no dia em que for obra de
homens livremente associados, submetida a seu controle e planejamento"
("O Capital").
Ou seja, está na hora de a esquerda voltar a questionar a produção
de mercadorias capitalistas, planejando e submetendo esta ao controle
do ser humano. Aí sim, quem sabe deixemos os PIBs de lado e comecemos
a produzir o que for necessário e desejante ao ser humano.
Sem a escravidão do mercado. Mas se não dermos nunca o
primeiro passo, se sempre esperarmos as condições objetivas
dadas pelo capital, não concluiremos nunca qualquer caminhada.
Antônio Júlio de Menezes Neto, Sociólogo e professor (FAEUFMG)
É membro efetivo do Instituto Política e Democracia: cidadania e transformação social na américa latina.
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